Você sabia que o financiamento pode virar um mico? Financiamentos nem sempre são um tiro certeiro, e aqui falo de pagamentos a prazo em geral, seja consórcio, imóvel na planta, CDC, etc. Fique atento às causas que frequentemente transformam um financiamento em um mico.
Para algumas pessoas mais experientes isso pode parecer óbvio, mas você sabe o quanto as parcelas de seu imóvel serão reajustadas mês a mês? Você sabe que o índice que reajusta a parcela do seu imóvel na planta não é o mesmo que reajusta ele quando pronto? Você sabe qual o índice que reajusta parcelas de um consórcio de uma casa? E de um carro? Você sabe o quanto deprecia o bem que está comprando, a ponto de chegar a pagar por algo que não vale mais nem metade do que valia quanto novo?
São várias as perguntas que nem sempre nos damos conta ao entrar em financiamento, creio que pelo enorme desejo de adquirir um bem, e grande parte também por má informação.
Separei abaixo alguma das razões que tornariam um financiamento um mico, e pela palavra "mico", tento dizer aquela coisa coisa que você não quer mais nas suas costas, mas que você não consegue se livrar dela.
1- Reajuste de parcelas
"Que lindo se a parcela de R$800,00 que estou pagando hoje no meu carro ficasse assim para sempre, não? Meu salário aumentando todo ano, e essa parcela sempre a R$800,00, tudo como eu planejei, nada poderá dar errado..." pois é, não é bem assim, o dinheiro emprestado tem um custo, e esse custo não é só o juros, mas o quanto o dinheiro emprestado no início valerá no final, vamos por partes:
Inflação
O Brasil já não tem inflação em níveis exorbitantes faz um bom tempo isso é verdade, mas ainda sim tem inflação, ainda que controlada. Isso quer dizer basicamente que o que você compra hoje com R$1.000,00, talvez o ano que vem você precise de R$1.200,00 para comprar o mesmo, por causa do aumento dos preços, que é nada mais do que a inflação.
Você não acha que sua financeira vai te emprestar R$1.000,00 e daqui a três anos vai se contentar que você pague de volta a ela os mesmos R$1.000,00 que tomou emprestado no começo, claro que não! O que ela faria com R$1.000,00 quando ela te emprestou hoje ela não faz mais, o dinheiro perde o valor com o tempo, e ela vai reajustar suas parcelas para que reflita essa realidade. (Aqui não estamos nem falando dos juros, que é o custo do dinheiro).
Sabe o que isso quer dizer? Que ao você comprar um carro, e fazer o empréstimo com parcelas mensais de R$800,00 todo feliz, pois R$800,00 é exatamente o que te sobra no mês, fique sabendo que daqui um ano você poderá estar pagando R$850,00, e no final do financiamento R$925,00. Isso por conta do reajuste. O seu salário deveria ser ajustado anualmente pelo menos pela inflação do ano anterior, o que nem sempre acontece, principalmente àqueles que trabalham informalmente ou em outro regime que não o CLT.
Ao pegar um financiamente esteja seguro dos índices que poderão incidir sobre as parcelas, os índices de inflação mais usados são o IGP-M e IPCA.
Sua parcela, salvo raros casos, não será sempre fixa, vai provavelmente aumentar, só esteja certo que você saiba disso, e que está preparado para isso.
INCC
Parecido com o caso anterior temos o Índice Nacional da Construção Civil, que é o índice a aplicado para financiamentos de construção e reforma de imóveis, por exemplo imóveis na planta. A pegadinha aqui é a mesma, ao entrar no stand ou no apartamento decorado de um imóvel ainda na planta, o corretor vai te mostrar um plano de 2 anos para pagar o imóvel enquanto está em construção, até que as chaves sejam entregues.
Cuidado! Não há nada de errado até aqui, mas não se engane, as parcelas não serão fixas, provavelmente a parcela mensal que iniciou com R$1.000,00, até a entrega das chaves poderá estar beirando R$1300,00, ou mais.
O pior acontece com as chamadas parcelas semestrais, anuais ou únicas como na entrega das chaves. Com o passar do tempo os reajustes se tornam maiores, por exemplo aquela parcela única de R$15.000,00 que você teria que dar na entrega das chaves daqui há 2 anos, pode chegar R$21.000,00. Fora da lei? Não. Errado? Não, é o índice que ajusta o custo das construtoras com material e mão-de-obra, nada mais justo. O INCC costuma ser maior que a inflação, portanto o aumento no seu salário pode não acompanhar o aumento das parcelas, fique atento!
Consórcio
"Vou fazer um consórcio então, esse não o tem o que reajustar, não é precisamente um financiamento, é um grupo de consorciados que se unem para adquirir os bens...", pois é, não se engane, consórcio também tem reajuste e normalmente para a mais.
O consórcio por si próprio tem taxas, ou seja, não ache que a soma exata das parcelas que você vai pagar resulta no valor do bem, a administradora de consórcio cobra em média 15% do valor do bem, fora outras pequenas taxas a mais como seguro. Mas não é esse o problema principal, digamos que esse é apenas o custo do dinheiro, como o juros num financiamento, o mico mora em outro lugar.
O principal problema é que as parcelas do consórcio reajustam conforme o valor do bem, esse é o conceito principal de um consórcio, se estamos num consórcio para comprar, por exemplo, um GOL 1.0 FLEX, para cada mês que se vai sortear um ganhador, todos devem estar pagando o suficiente para poder comprar o GOL 1.0 FLEX para o contemplado, ou seja se ele vale hoje R$30.000,00 e sua parcela mensal é de R$400,00, se daqui um ano ele valer R$32.000,00, sua parcela será reajustada para cima, para que todos consorciados tenham a chance de serem sorteados e contemplarem a carta do valor do bem, no exemplo acima, sua parcela poderia ir para R$420,00. A quanto será reajustada depende do número de consorciados no grupo, mas com certeza será.
O que isso quer dizer? Que você pode ser sorteado ou dar um lance para comprar, como no exemplo acima, seu GOL 1.0 FLEX valendo 30.000,00, mas até o fim do consórcio, se o carro aumentar, você pagará parcelas para um valor maior que o do bem que você adquiriu. Se acontecer o inverso, o bem abaixar de valor, sua parcela diminui, caso raro de acontecer.
Quer pioriar a situação? O seu carro que valia R$30.000,00 daqui um ano valerá R$28.000,00 no mercado de usados, e você ainda estará pagando parcelas talvez até de R$32.000,00 (valor do mesmo carro zero), no final do consórcio seu carro pode estar valendo metade do preço do que quando você foi contemplado e você, já sabe, pagando parcelas de um zero, que por sua vez, pode estár mais caro. Isso é um micão.
Isso abre espaço para o próximo tópico: depreciação...
2- Depreciação e manutenção
Fique atento ao bem que você vai adquirir, se ele deprecia rápido, ou seja, perde valor de mercado rápido, então não vale a pena fazer financiamento longo de vários anos. Isso porque você poderá depois de muito tempo estar pagando ainda pelo valor de algo novo, quando o que você tem em mãos já não vale nem metade.
Além disso tem a manutenção, isso se aplica mais a carros, se você financiar um carro por 5 anos, o seu carro seguramente vai começar a dar problemas antes mesmo que você termine de pagá-lo. Sem contar outros custos de manutenção como seguro, revisões, gasolina, etc. Você não que comprar um carro de R$50.000,00 financiado em 5 anos, e ao final de quatro anos, quando o carro estiver valendo R$32.000,00 você ainda estará pagando parcelas dos R$50.000,00 emprestados, incluindo juros (custo de empréstimo do dinheiro) e os reajustes de inflação (custo do dinheiro no tempo), sem contar os gastos com manutenção, que um carro de 4 anos com certeza terá.
Não devo financiar então? Olha a reposta é sempre não, mas se você não tem o dinheiro a vista e quer ter o bem , então para bens que depreciem rápido como é o caso de computadores e automóveis, não faça financiamentos longos. Se você não pode finaciá-los em prazos menores, então, a recomendação é não financiar, ou procure por bens de menor valor, exemplo, um carro mais popular ou um imóvel menor ou em uma área menos valorizada.
Imóveis, na maioria dos casos, se valorizam, o que acaba por ser bom, mesmo financiando, você pode obter algum lucro no furuto. Mas não é regra, imóveis residenciais, por exemplo, perto de indústrias, pontes, edifícios antigos, tendem a se desvalorizar. E mesmo os que valorizam, não esqueça de custos com advogados, arquitetos, cartório, prefeitura, reformas, imobiliária, entre outros.
Para resumir: financiamentos devem ser evitados, mas muitas vezes é a única maneira de conseguirmos conquistar nossos bens, e tudo bem se você entrar em um, apenas não deixe ele virar um mico, calcule os reajustes e saiba que daqui um tempo estará pagando parcelas maiores, certifique-se do índice que reajustará as parcelas, estude o comportamento histórico do índice, e esteja preparado para o futuro. Bens que depreciam rápido não devem ser financiados em muito tempo, senão também viram micos.
E para finalizar: o financiamento nem sempre é ruim, se você tem um valor X em dinheiro em uma aplicação que renda juros maiores do que os cobrados pelo empréstimo da mesma quantia em dinheiro, então pelo amor de Deus, financie.